René Descartes

Retrato (pintura a óleo) de René Descartes à esquerda e o título "Biografia René Descartes" à direita.
René Descartes
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Conheça mais sobre a vida e as ideias de René Descartes.

Biografia

Nascido na pequena cidade francesa de La Haye no dia 31 de março de 1596, René Descartes foi um notável filósofo, matemático e físico, além de ser considerado o pai da filosofia moderna. Filho de Jeanne Brochard e Joachim Descartes, René perdeu a mãe quando tinha apenas um ano, ficando ele, sua irmã Jeanne e seu irmão Pierre sob guarda da avó materna.

Autor de importantes livros para a ciência, como Discurso do Método (1637), A Geometria (1637), O Homem (publicado em 1662, após sua morte) e O Mundo/Tratado da Luz (publicado em 1664), Descartes era um indivíduo extremamente curioso e teve como objetivo de vida a incessante busca pela verdade. Também foi autor de frases célebres como a elegante “Penso, logo existo”, aparentemente simples, mas carregada de ideias filosóficas.

René Descartes ingressou no colégio Jesuíta de La Flèche no início do século XVII, entre 1604 e 1606, onde permaneceu por cerca de 9 anos, aprendendo línguas clássicas, história, filosofia, lógica, física, matemática, poesia, entre outras disciplinas. Foi uma formação voltada à filosofia e às ciências.

Seu pai, um advogado e magistrado, conselheiro do parlamento da Bretanha — França —, sempre desejou que o filho se formasse em direito. Descartes cedeu à vontade de Joachim, graduando-se em direito em 1616 pela Universidade de Poitiers, mas nunca exerceu a profissão por não se interessar pela área.

O filósofo francês tinha grande admiração pela Europa e conheceu diversos países durante sua vida. Em 1618, foi para a Holanda servir o exército de Maurício de Nassau. No país, conheceu Isaac Beeckman — médico, físico, filósofo e matemático, com quem Descartes manteve uma grande amizade.

A história conta que Descartes conheceu Beeckman quando estava na cidade de Breda, onde era costume colar problemas matemáticos nas paredes da rua esperando que alguém os resolvesse. Descartes deparou-se com um desses problemas, mas não entendia a língua com a qual ele foi escrito.

Ao perceber que Isaac Beeckman falava uma língua conhecida, logo lhe pediu que traduzisse o problema. Feita a tradução, René disse a Isaac que sabia como resolver o problema e, desde então, mantiveram contato [1].

Em 1619, serviu o exército de Maximiliano da Baviera, na Alemanha. Enquanto o exército estava imobilizado, devido ao inverno rigoroso, René isolou-se numa estalagem bem aquecida em Ulm, onde passou dias refletindo. Em um desses dias, em 10 de novembro de 1619, Descartes teve três sonhos que o ajudaram a definir a sua “missão de vida” [mais sobre os sonhos na seção Os Três Sonhos de Descartes] [2].

No ano de 1621, deixou definitivamente a carreira militar para dedicar-se exclusivamente à filosofia e à ciência. Nos anos seguintes, passou pela Dinamarca, Polônia e por seu próprio país natal, a França. Em 1628, optou por permanecer na Holanda, onde deu início à produção de suas obras mais importantes [3].

Relatos contam que Descartes teve uma filha com Helena Jans van der Strom, chamada Francine, em 1635. Helena era criada de um alojamento onde René se hospedou, em Amstendã. Descartes assumiu a paternidade, mas nunca se casou com Helena. Francine, que era muito querida por ele, morreu com cinco anos de escarlatina.

Em 1649, foi para Estocolmo na Suécia ensinar filosofia e matemática à rainha Cristina, de 23 anos. Descartes tinha o hábito de acordar depois de meio-dia, mas as aulas para a rainha Cristina começavam às cinco horas da manhã. Além disso, o clima frio da Suécia não fazia bem a Descartes, cuja saúde, acredita-se, era bastante frágil.

Em 1650, foi acometido por uma pneumonia e veio a falecer no dia 11 de Fevereiro, com apenas 53 anos.

Os Três Sonhos de Descartes

Na madrugada de 10 para 11 de novembro de 1619, o filósofo teve três sonhos distintos que o levaram a descobrir sua vocação [3].

Primeiro sonho

Descartes estava caminhando por uma estrada quando foi atingido por uma forte ventania. Ao ver um colégio próximo, correu até ele buscando abrigo. Ao chegar na igreja do colégio para rezar, ele viu um homem conhecido atrás das cortinas, mas passou por ele sem o cumprimentar. Ao dar meia volta para se desculpar pela falta de gentileza, a ventania o atingiu novamente, impedindo-o de caminhar em direção ao homem. Descartes se curvava para tentar lutar contra o vento enquanto ao homem e às pessoas à sua volta nada acontecia. O vento soprava apenas em Descartes.

Segundo sonho

Um grande estrondo de um trovão acorda Descartes. Ao abrir os olhos, ele vê seu quarto repleto de faíscas cintilantes.

Terceiro sonho

Descartes estava diante de um livro de poesia chamado Corpus poetarum e leu o seguinte verso: “Quod vitae sectabor iter?”, que significa “Que caminho devo eu seguir na vida?”. Em seguida, um homem que ele nunca havia visto antes lhe apresentou um texto em verso que começava com “Est et non” — “Sim e não”.

René interpretou seus sonhos da seguinte maneira: o primeiro sonho significava os erros, medos e dúvidas de seu passado. O segundo era um sinal do “espírito da verdade” descendo sobre ele. O terceiro lhe indicava para o futuro [4].

Descartes e o éter

Para Descartes, todos os fenômenos da natureza eram explicados por interações mecânicas entre corpos compostos de matéria, não sendo possível para um objeto influenciar outro sem o contato físico entre eles.

Segundo o seu livro Princípios da Filosofia, o movimento dos planetas funcionava por meio de vórtices. A rotação do Sol produziria um turbilhão no meio em que estava imerso, fazendo com que os planetas ao seu redor fossem puxados em sua direção. A força da gravidade só seria descoberta por Isaac Newton anos depois da morte de Descartes, em 1686 [5].

Por acreditar que tudo o que acontece na natureza é resultado de contato direto entre objetos, a única forma de explicar como era possível à luz viajar no espaço era reforçando a ideia de que existia um meio invisível, sem massa e estável que permeava o universo: o éter [6].

A existência dessa substância “mágica” era aceita por outros brilhantes cientistas e assim continuou durante séculos. Essa ideia só começou a ser derrubada no final do século XIX, depois de realizado um experimento por Albert Michelson e Edward Morley (o interferômetro de Michelson-Morley) e mais tarde, no início do século XX, por Albert Einstein e sua teoria da relatividade [6, 7].

O Método Cartesiano

Em seu livro Discours de la méthode (Discurso do Método), de 1637, o filósofo mostra o método utilizado por ele na busca da verdade e do conhecimento. Foi dividido em quatro preceitos: evidência, divisão ou análise, ordem ou dedução e enumeração.

O primeiro princípio também é conhecido como “dúvida hiperbólica”. Cada um deles é explicado à seguir:

“O primeiro — consistia em nunca aceitar, por verdade, cousa nenhuma que não conhecesse como evidente; isto é, devia evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente ao meu espírito que não tivesse nenhuma ocasião de o pôr em dúvida. O segundo — dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas pudessem ser e fossem exigidas para melhor compreendê-las. O terceiro — conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo certa ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último — fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais, que ficasse certo de nada omitir.” [3]

Geometria analítica e o plano cartesiano

Em 1637, Descartes criou a geometria analítica, relacionando a álgebra com a geometria euclidiana por meio de um sistema de coordenadas conhecido como plano cartesiano [8]. Nele, as equações matemáticas poderiam ser traduzidas em figuras geométricas e vice-versa.

Assim como uma equação algébrica, um gráfico traçado em um sistema de coordenadas é uma maneira de representar um problema matemático. A diferença é que o método criado por Descartes facilita a visualização e permite analisar melhor o problema.

Para alunos de ciências exatas é muito natural nomear variáveis como x, y e z, mas nem todos sabem que foi Descartes quem deu início a essa notação. Em seu livro La Géométrie, ele propôs chamar as constantes como letras do início do alfabeto e as variáveis como letras do final do alfabeto [9]. Foi nesse mesmo livro que o matemático introduziu seu sistema de coordenadas cartesianas.

“Penso, logo existo.”

Segundo relatos, um dia René Descartes estava pensando na questão da natureza humana e enquanto passeava por Paris, deparou-se com um chafariz com estátuas de mecanismos hidráulicos. Uma das estátuas era de Netuno e fazia movimentos com o tridente como se quisesse espetar quem passava em sua frente.

Descartes logo começou a pensar sobre o que via e imaginou que talvez os animais fossem espécies de autômatos, com diversas engrenagens que os dariam movimento [10]. Então, era possível que nós humanos fôssemos máquinas mais sofisticadas que os animais.

Mas o que, afinal, nos torna humanos?

Desde então, Descartes começou a questionar tudo aquilo que era suscetível à dúvida. Chegou a fazer a seguinte declaração: “Tudo que eu aceitava como sendo verdade até agora eu adquiri dos sentidos. No entanto, ocasionalmente eu descubro que eles me enganam, e é prudente nunca confiar naqueles que nos enganam, nem mesmo uma vez.”

Todas as sensações proporcionadas pelos seu sentidos também eram sentidas em seus sonhos. Talvez a vida fosse, portanto, apenas uma ilusão.

Descartes seguia a fé católica e chegou a ser acusado de ceticismo em relação a Deus por questionar tanto o mundo à sua volta. René passou a duvidar até mesmo se ele próprio como indivíduo existia, mas chegou à conclusão de que o ato de questionar exigia a existência de um questionador.

Assim, Descartes percebeu que pensar na própria existência provava que sua mente existia e era isso que o tornava humano. Toda essa linha de raciocínio pode ser resumida em sua mais brilhante frase: “Penso, logo existo”.

Principais obras

Confira abaixo uma lista com os livros mais importantes de René Descartes.

Règles pour la direction de l’esprit (Regras para a Direção do Espírito) — 1628

Em Regras para a Direção do Espírito, o autor enumera 21 regras para o uso correto da mente humana. É neste livro que Descartes introduz a necessidade de um método para a busca da verdade (4ª regra).

Discours de la méthode, pour bien conduire sa raison et chercher la vérité dans les science (Discurso do Método ou Discurso sobre o Método) — 1637

Prefácio que mostra o método utilizado por Descartes para buscar o conhecimento e a verdade, como introdução a três ensaios: La Dioptrique (A Dióptrica), Les Météores (Os Meteoros) e La Géométrie (A Geometria).

O primeiro trata dos fenômenos ópticos como reflexão e refração. O segundo é um texto sobre fenômenos atmosféricos (meteorológicos). E o terceiro, sobre geometria, foi onde o plano cartesiano e a geometria analítica foram apresentados.

É interessante notar que a escolha do nome Discurso em vez de Tratado foi justificada no próprio livro, quando Descartes escreve: “(…) o meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua própria razão, mas somente mostrar de que maneira procurei conduzir a minha.”

O Discurso foi escrito em francês, uma inovação na época em que o latim era a língua universal.

Méditations métaphysiques (Meditações Metafísicas) — 1641

Essa obra trata do estudo do ser e da realidade, a metafísica. O livro é narrado em primeira pessoa — uma forma de os leitores acompanharem os pensamentos e conclusões do autor em vez de ler apenas as conclusões prontas. [11]

Les principes de la philosophie (Princípios da Filosofia) — 1644

Nesta obra, são discutidos os princípios do conhecimento humano, os princípios das coisas materiais, a composição do universo e a estrutura da Terra. Nele, Descartes tenta descrever o movimento dos astros por meio de vórtices.

L’homme (O Homem) — escrito entre 1630 e 1633, publicado em 1662

O Homem é uma publicação sobre o corpo humano. Apesar de não ser médico, o filósofo tinha grande interesse por essa ciência. Afirmava que a glândula pineal, presente no cérebro, era responsável pela interpretação dos sinais vindos do mundo exterior [10].

Segundo ele, apenas os humanos possuíam essa glândula; um grande equívoco, pois os animais também a têm, inclusive mais desenvolvida.

Le monde/Traité de la lumière (O Mundo/Tratado da Luz) — escrito entre 1632 e 1633, publicado em 1664

Neste livro é abordada a inclinação do francês pelo modelo heliocêntrico de Copérnico, que propunha que a Terra orbitava o Sol e não que o Sol, a Lua e os planetas orbitavam a Terra. Descartes, que já havia terminado de escrever o livro em 1633, soube da condenação de Galileu pela Igreja Católica por defender a visão heliocêntrica — fato que ocorreu no mesmo ano.

Para evitar qualquer tipo de atrito com a Igreja, René decide não divulgar O Mundo, cuja publicação ocorreu apenas 14 anos após a sua morte.

Bibliografia

[1] Science Photo
[2] Super Interessante
[3] DESCARTES, René; Discurso do Método, Nova Fronteira (Saraiva de Bolso), 2011
[4] Filme Cartesius, de Roberto Rossellini, 1974
[5] GLEISER, Marcelo; A Dança do Universo, Companhia das Letras, 1997
[6] BRYSON, Bill; Breve História de Quase Tudo, Companhia das Letras, 2003
[7] HAWKING, Stephen; O Universo numa Casaca de Noz, Editora Arx, 2006
[8] JOHNSON, Steven; De Onde Vêm as Boas Ideias, Editora Jorge Zahar, 2011
[9] BELLOS, Alex; Alex no País dos Números, Companhia das Letras, 2010
[10] MOSLEY, Michael, LYNCH, John; Uma História da Ciência, Editora Jorge Zahar, 2011
[11] O Livro da Filosofia, Editora Globo, 2012