Sapiens – O Veredito

Imagem de capa com o livro Sapiens à esquerda e o texto "Livro #3, Sapiens, Yuval Noah Harari" à direita.

No magnífico Sapiens: Uma breve história da humanidade, o professor Yuval Noah Harari narra uma deliciosa e em alguns trechos até bem humorada história da nossa espécie.

Por que o Homo sapiens é tão bem sucedido em termos de perpetuação da espécie?
Como conseguimos formar sociedades tão grandes?
O que é que temos de tão diferente dos outros animais?

Continue lendo para saber algumas das respostas que estão no livro.

Um pouco sobre nossos antepassados distantes

Somos membros de uma família chamada grandes primatas. Os chimpanzés são os parentes mais próximos ainda vivos.

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Como mostra o gif (em espanhol, mas dá para entender), os processos evolutivos deram origem a uma série de espécies humanas.

Os humanos surgiram na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos a partir dos Australopithecus, ou “macaco do Sul”.

Homo rudolfensis “homem do lago Rudolf” e Homo ergaster “homem trabalhador” também habitaram a região.

Homo erectus “homem ereto” viveu na Ásia Ocidental e foi a espécie humana de maior duração, sobrevivendo por quase 1,5 milhão de anos.

O Homo neanderthalensis ou “homem de Neandertal” viveu na Europa e na Ásia Ocidental.

O Homo soloensis “Homem do vale do Solo” viveu na ilha de Java, na Indonésia.

Os Homo floresiensis viveram na ilha de Flores (também uma ilha indonésia). Tinham no máximo um metro e não ultrapassavam os 25 quilos.

O Homo denisova foi descoberto em 2010 por cientistas que escavavam a caverna de Denisova, na Sibéria.

A nossa espécie — Homo sapiens — surgiu há cerca de 200 mil anos* na África Ocidental.

*ATUALIZAÇÃO: descobertas recentes de fósseis no Marrocos indicam que o Homo sapiens surgiu 100 mil anos antes do que se pensava, ou seja,há 300 mil anos. (Nature)

Duas visualizações da reconstrução do fóssil mais antigo conhecido do Homo sapiens, baseado em microtomografias computadorizadas de diversos fósseis originais encontrados em Jebel Irhoud (Marrocos).

Duas visualizações da reconstrução do fóssil mais antigo conhecido do Homo sapiens, baseado em microtomografias computadorizadas de diversos fósseis originais encontrados em Jebel Irhoud (Marrocos). Créditos: Philipp Gunz, MPI EVA Leipzig (Licença: CC-BY-SA 2.0)

Há 100 mil anos pelo menos seis espécies humanas distintas habitavam a Terra.

No decorrer do livro, o autor incentiva algumas reflexões ao fazer perguntas como esta:

Se há 100 mil anos diversas espécies humanas coexistiram, por que hoje somos a única espécie humana?

E responde em seguida.

A teoria da miscigenação diz que os sapiens procriaram com os neandertais e as populações se fundiram. E assim foi também com o Homo erectus.

A teoria da substituição diz que sapiens e neandertais não eram lá muito compatíveis e com a sucessiva morte dos neandertais, as populações de sapiens os substituíram. O mesmo para as outras espécies humanas.

Mas também existe a possibilidade de o sapiens ter levado as outras espécies humanas à extinção devido à intolerância com seres um pouco diferentes.

Nosso cérebro e o fogo

O cérebro do Homo sapiens tem de 1200 a 1400 centímetros cúbicos e consome 25% da energia do corpo quando em repouso. Já o cérebro de outros primatas consome 8% da energia do corpo em repouso.

Há 800 mil anos, algumas espécies humanas usavam o fogo esporadicamente. Cerca de 300 mil anos atrás, os Homo erectus, neandertais e outros antepassados usavam o fogo diariamente. Inclusive para cozinhar.

É muito mais fácil mastigar e digerir alimentos cozidos do que alimentos crus. Chimpanzés passam cerca de cinco horas mastigando por dia. Para nós, basta uma hora para concluir uma refeição.

O fato de termos aprendido a cozinhar, para alguns cientistas, tem relação direta com o tamanho do nosso cérebro.

Caçadores-coletores

A capacidade de andarmos em duas pernas fez dos braços desnecessários para locomoção, liberando as mãos para uma infinidade de outras coisas, inclusive caçar e coletar.

Durante dezenas de milhares de anos, antes da Revolução Agrícola, foi com essas atividades que nossos ancestrais passaram grande parte do tempo. E eram bons nisso por suas habilidades sociais e tecnologia. Aliás, especialistas afirmam que a nossa mente ainda é adaptada para a caça e a coleta.

Os caçadores-coletores eram, individualmente, muito mais habilidosos e conhecedores dos animais, plantas e sobrevivência do que nós. Nossa sobrevivência depende cada vez mais das habilidades dos outros.

O estilo de vida nômade com caça e coleta pode parecer difícil para seres humanos modernos, mas não é bem assim.

Baseado em grupos de caçadores-coletores que vivem ainda hoje, sabemos que a jornada de trabalho desses humanos é/foi de 35 a 45 horas semanais. Eles raramente ficavam doentes principalmente porque andavam em pequenos bandos e não tinham a mesma proximidade de animais domésticos (origem de diversas doenças infecciosas) que há hoje.

Revolução Cognitiva — 70 mil anos atrás

Novas formas de pensar e de linguagem surgiram nessa época.

A fofoca (sim, a fofoca) também foi essencial para os grupos de sapiens saberem quem era confiável ou não. Assim, puderam criar relações mais sólidas e complexas, possibilitando a formação de grupos maiores.

Apesar de muitos animais terem uma linguagem própria, eles só conseguem descrever a realidade objetiva. Nós fomos mais além.

Os sapiens começaram a acreditar em mitos e em tudo que decorre dessa crença na ficção. A nossa capacidade de acreditar em assuntos “fictícios” e transmitir esse tipo de informação por meio da linguagem marcou a Revolução Cognitiva.

Reflita por um instante. Empresas, instituições, governos e dinheiro são todos obras da nossa imaginação. São todos “mitos”.

E acreditar coletivamente nesses “mitos” é mais um aspecto que nos diferencia dos outros animais. Isso nos permite cooperar com um grande número de estranhos sem precisar conhecê-los a fundo. A vida em sociedade está organizada com base em uma ordem que está em nossa imaginação.

Revolução Agrícola — 12 mil anos atrás

Os sapiens passaram a se dedicar à manipulação de algumas plantas e animais, que podiam ser “domesticadas”. E foi justamente onde essas espécies ocorriam que se deram as revoluções agrícolas.

O autor é enfático ao dizer que, ao contrário do que se pensa, a agricultura ou o fato de irem abandonando a prática nômade não tornou a vida das pessoas mais fácil ou agradável. Pelo contrário.

O que houve foi uma maior disponibilidade de alimentos para os humanos, mas não uma dieta melhor nem maior qualidade de vida. Os agricultores trabalhavam mais que os caçadores-coletores, a população cresceu absurdamente e os indivíduos mais favorecidos pertenciam às elites.

Havia um estresse constante entre os agricultores porque eles sempre precisavam pensar na próxima colheita. Mesmo que a anterior tivesse sido extra produtiva. A partir daí a preocupação com o futuro foi gradativamente fazendo parte da nossas vidas.

Pequenos vilarejos foram se transformando em cidades e reinos. No início as trocas comerciais eram por escambo, mas nem sempre era interessante fazer esse tipo de acordo. Era preciso algo amplamente aceito que representasse o valor de produtos e serviços e pudesse ser convertido em outros produtos e serviços.

Na história já foram usados conchas, grãos, sal, moedas etc como dinheiro. Inicialmente o dinheiro tinha valor inerente, mas depois passamos a confiar até mesmo em folhas de papel.

Os sumérios usavam grãos de cevada como dinheiro. É a primeira forma de dinheiro que conhecemos, tendo aparecido aproximadamente em 3000 a.C.

(…) o dinheiro é o mais universal e mais eficiente sistema de confiança mútua já inventado.

Para armazenar as informações de uma ordem social que está na nossa imaginação, foi preciso mais que a linguagem. Esses dados começaram a ser processados de forma eficiente apenas após os sumérios inventarem a escrita entre 3500 e 3000 a.C.

E por falar em ordem, as três principais ordens a nos unir foram/são o dinheiro (econômica), o império (político) e a religião (religiosa).

(…) religião é um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença de uma ordem sobre-humana (…)

Revolução Científica — por volta de 1500

Durante muito tempo, as descobertas só eram feitas por acaso, o aprimoramento de tecnologias ocorria em casos isolados e os patrocinadores apoiavam artesãos, padres, filósofos etc não para criarem novas capacidades, mas principalmente para mantê-las.

Até que aproximadamente a partir de 1500, os humanos passaram a se dar conta do quão ignorantes eram.

Quantas perguntas tinham.

E como tinham a habilidade de conseguir respostas, de aumentar o seu conhecimento sobre a natureza, de saber mais sobre como as coisas funcionam, de criar coisas novas.

O crescimento da pesquisa científica resulta em diversos tipos do novas ferramentas, mas as tecnológicas acabam chamando mais atenção devido ao seu valor prático. Antes da Revolução Científica, ciência e tecnologia não andavam tão juntas como vemos hoje, nitidamente.

De 1500 para cá, a população humana aumentou 14 vezes, a produção aumentou 240 vezes e o consumo de energia aumentou 115 vezes.

Crescimento da população mundial entre 1500 e 2015. Fonte: Our World in Data.

Crescimento da população mundial entre 1500 e 2015. Fonte: Our World in Data.

Revolução Industrial — por volta de 1700

O grande marco da Revolução Industrial foi a conversão de energia. O motor a vapor passou a mover indústrias, trens, moinhos… Isso deu uma guinada na produção, no comércio e mudou completamente a forma como nos comportamos e vivemos em sociedade.

Máquinas passaram a substituir animais ou nós mesmos em tarefas repetitivas. Cada vez menos pessoas eram necessárias para o trabalho no campo. A população nas cidades começou a aumentar.

Heranças da Revolução Industrial como a grade horária e a linha de montagem são parte de nossas vidas até hoje. Até mesmo fora das fábricas — pense nas escolas, por exemplo.

Futuro

O avanço da genética e da nanotecnologia vai nos permitir viver ainda mais. Possivelmente seremos amortais, ou seja, viveremos para sempre desde que a consciência esteja íntegra. Pode ser que venhamos a criar um novo tipo de consciência.

A única característica da qual podemos ter certeza é a mudança incessante.

Mais sobre colonização, capitalismo, formação de um império global, progresso, felicidade, paz você encontra nas páginas do livro. 😉

O Veredito

Sei que dificilmente o professor Yuval Noah Harari vai ler isto, mas sou muito grato por ele ter escrito esse livro. Me fez sentir mais conectado aos nossos ancestrais e ao nosso planeta. É um sentimento difícil de descrever. Algo como “é muito bom ser humano”, mas sem arrogância.

Na minha opinião, foi o melhor dos três livros da série (os outros foram “Origens” e “A Colher que Desaparece“).

Sapiens: Uma breve história da humanidade tem uma linguagem bastante simples, foi muito bem traduzido por Janaína Marcoantonio e é muito gostoso de ler! Recomendo para todos os públicos!

Fiquem com a palestra que o autor fez para o TED.


Este texto faz parte do projeto I Mês da Leitura do Blog da Ciência.

Sapiens: Uma breve história da humanidade foi o terceiro de uma série de três livros que foram lidos e comentados entre 15/05 e 16/06/2016.


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