Origens – O Veredito

Imagem de capa com o livro Origens à esquerda e o texto "Livro #1, Origens, Neil deGrasse Tyson & Donald Goldsmith" à direita.
Origens – O Veredito
4.4 (88%) 5 votes

Confesso que a leitura do livro de Neil deGrasse Tyson (NDT) & Donald Goldsmith não foi tão simples quanto eu esperava. Minhas expectativas eram que a narrativa seguisse a linha de Cosmos, de Carl Sagan, ou até mesmo do reboot do programa de televisão de mesmo nome apresentado pelo próprio NDT.

No entanto, o que encontrei foi uma leitura bastante técnica. E bastante informativa também, não vou negar.

Vamos aos comentários de cada parte do livro.

Parte I — A origem do Universo

O livro começa falando sobre a origem do Universo.
Partículas subatômicas, antimatéria, fótons, relatividade, mecânica quântica, radiação cósmica de fundo (CDR — cosmic background radiation), matéria escura, energia escura etc.
Difícil não recorrer a explicações técnicas…

Durante a leitura da Parte I, me dei conta que os vídeos do In a Nutshell são um ótimo complemento.

A didática de um vídeo pode superar a didática de um livro quando o assunto é partículas subatômicas. Há legendas em português, basta habilitar.

Quando o assunto é matéria escura e energia escura, também. Tem legendas nesse também.

Também me dei conta que a Parte I não tinha apenas linguagem técnica. Veja esta definição de física e astrofísica:

A “física” descreve como a matéria, a energia, o espaço e o tempo se comportam e interagem uns com os outros. (…) Quando aplicamos essas leis a cenários astronômicos, lidamos com a física escrita com letra maiúscula, a que damos o nome de astrofísica.

Ah, e tem uma coisa que fico fascinado sempre que leio: na natureza há quatro tipos básicos de forças conhecidas.

  • Gravidade.
    Força atrativa. A força gravitacional entre dois objetos é proporcional ao produto das massas dividido pelo quadrado da distância entre seus centros.
  • Eletromagnetismo.
    Ocorre entre partículas com carga elétrica e é proporcional ao inverso do quadrado da distância entre elas.
  • Força nuclear forte.
    Força atrativa que atua entre prótons e nêutrons dentro de distâncias de muito pequenas.
  • Força nuclear fraca.
    Força que atua entre partículas elementares.

A primeira parte realmente foi a mais difícil de digerir, mas as demais compensaram.

Parte II — A origem das galáxias e a estrutura cósmica

Neste capítulo, podemos aprender mais sobre os astrônomos e telescópios que possibilitaram as suas descobertas.

Sir William Herschel construiu o primeiro telescópio realmente grande em 1774. E foi ele que em 1781 descobriu Urano, um dos planetas que não é visível com facilidade a olho nu.

O telescópio de Sir William Herschel.

O telescópio de Sir William Herschel. Imagem: Wikipedia.

Entre outros telescópios, Edwin Hubble usou o Hooker durante suas pesquisas. Foi Hubble quem descobriu que o Universo está em expansão, e não no chamado estado estacionário. Em 1936, ele publicou o livro Reino das Nebulosas (Realm of the Nebulae), em que apresentou um diagrama de classificação de galáxias. O diagrama dividia as galáxias entre elípticas e espirais.

Telescópio Hooker do Observatório Mount Wilson, Califórnia.

Telescópio Hooker do Observatório Mount Wilson, Califórnia. Imagem: Ken Spencer.

Diagrama de Hubble. Classificação de galáxias segundo o astrônomo Edwin Hubble publicou em 1936.

Diagrama de Hubble. Classificação de galáxias segundo o astrônomo Edwin Hubble publicou em 1936. Imagem: adaptado de Wikipedia.

A galáxia de Andrômeda, por exemplo, seria classificada como Sb. É o objeto mais distante visível a olho nu, desde que a observador esteja longe das luzes da cidade e que o céu esteja limpo.

Galáxia de Andrômeda captada em infra-vermelho pelo telescópio espacial WISE, da NASA.

Galáxia de Andrômeda captada em infra-vermelho pelo telescópio espacial WISE, da NASA. Imagem: Wikipedia.

Alguns anos depois, em 1966, o astrônomo Halton Arp publicou o Atlas de galáxias peculiares (Atlas of Peculiar Galaxies). Nele, Arp dava atenção às galáxias irregulares, que não estavam incluídas no sistema de classificação de Hubble. As galáxias irregulares correspondem a cerca de 10% de todas as galáxias. Acredita-se que sejam o resultado de colisão entre galáxias.

É claro que os autores dedicam algumas páginas para explicar por que a estrutura das galáxias é assim.

E o que mais me chamou atenção foi que as observações do Telescópio Espacial Hubble, lançado em 1990, contribuíram para entendermos mais sobre o centro das galáxias.

É provável que toda galáxia gigante tenha como núcleo um buraco negro supermassivo, que atrai a matéria ao seu redor com sua gravidade descomunal.

Para fechar a Parte II, foi curioso ler que o Telescópio Espacial James Webb estava previsto para entrar em operação em 2011, mas até agora não foi lançado. A previsão atual é que o lançamento ocorra em Outubro de 2018. No site oficial do James Webb dá pra ver a montagem do telescópio ao vivo.

Parte III — A origem das estrelas

As estrelas se formam a partir de nuvem gigantescas de gás e poeira. Aliás, sempre que você ler “poeira” nesse contexto, entenda como um conjunto de moléculas complexas e não como aquela sujeira que varremos ou nos faz espirrar.

A nebulosa de Órion, por exemplo, é um grande berçário de estrelas.

Nebulosa de Órion.

Nebulosa de Órion. Imagem: Opo Terser.

É justamente das estrelas que vêm os elementos químicos que formam planetas e seres vivos. Você já deve ter ouvido falar que somos poeira das estrelas. Pois é, o processo de fusão nuclear que ocorre dentro delas gera elementos mais pesados a partir da combinação de elementos mais leves.

Para citar um exemplo mais próximo, e explicando de forma extremamente simplificada, o nosso Sol funde hidrogênio (H) em hélio (He).

Quando uma estrela termina seu período de fusão nuclear, ela explode e espalha seus elementos por todo o espaço. É o que chamamos de supernova.

E ao falar de elementos químicos, qual é a primeira coisa que vem à cabeça?

A tabela periódica.

Os autores explicam a importância de alguns do elementos e comentam que depois da descoberta do Urânio (U), houve uma engraçada tendência em homenagear planetas. Netúnio (Np) e Plutônio (Pu) vêm logo depois do Urânio na tabela periódica.

Urano foi descoberto em 1781. O urânio em 1789.
Netuno foi descoberto em 1846. O netúnio em 1940.
Plutão foi descoberto em 1930. O plutônio em 1934.

Melhor que eu escrever mais sobre a tabela periódica, deixo outra ótima frase do livro.

A tabela atesta que o empreendimento da ciência é uma aventura humana internacional, conduzida não só em laboratórios, mas também em aceleradores de partículas, e nas fronteiras do espaço e tempo de todo o cosmos.

Parte IV — A origem dos planetas

Algumas das teorias discutidas no livro afirmam que a formação de planetas começa com átomos que se unem aos milhões para gerar poeira interestelar. Quando partículas de poeira se chocam e aderem umas nas outras (acreção), são capazes de formar grandes objetos. Ao alcançarem a extensão de 800 metros, passam a ser chamados de planitesimais. Isso significa que têm força gravitacional o bastante para atrair outros objetos.

Além dos planetas, no nosso sistema solar há uma enorme quantidade de escombros restantes de sua formação.

Entre as órbitas de Marte e Júpiter está o Cinturão Principal de Asteróides.

Asteróides são enormes objetos de rocha ou rocha e metal, medindo de ~100 metros a 1.000 quilômetros de diâmetro.

Diferença entre meteoroide, meteoro e meteorito. Meteoroide: Corpo celeste maior do que a poeira cósmica, mas menor que um asteróide. (A partir de 100 micrometros a 50 metros aprox.). Meteoro: Raio de luz ou flash produzido quando um meteoroide entra na atmosfera e é aquecido devido à pressão do choque contra o ar. Meteorito: Rocha proveniente do espaço que não se desintegrou ao atravessar a atmosfera e acabou colidindo contra a superfície terrestre.

Diferença entre meteoroide, meteoro e meteorito. Imagem: adaptado de Mola Saber.

Depois da órbita de Netuno há outro cinturão, o Cinturão de Kuiper, que inclui cometas, Plutão e outros planetas anões. Cometas são fragmentos do início do sistema solar formados de rocha, poeira, gelo e gelo seco.

No final da Parte IV, os autores citam a missão Kepler da NASA, que ainda não estava em operação no ano da publicação original do livro (2004). A missão Kepler foi lançada em 2009 e visa encontrar planetas do tamanho da Terra em outras estrelas. Até agora já foram encontrados mais de 2.000! Há uma lista no site oficial da missão Kepler.

Parte V — A origem da vida

Temos indícios de que a vida na Terra surgiu na água e a partir de processos naturais que produziram aminoácidos. Os aminoácidos são as bases de moléculas de proteína, essenciais à vida como conhecemos.

Um dos grandes indícios é o experimento de Stanley Miller e Harold Urey, realizado em 1953. Os cientistas simularam as condições de uma poça de água nos primórdios da Terra. Depois de alguns dias, o experimento havia gerado alguns açúcares e aminoácidos.

Ainda não encontramos vida em outras partes do Universo, mas continuamos procurando. Os astrofísicos chamam a noção de que não somos especiais como “Princípio Copernicano”.

Os melhores candidatos a abrigar vida são planetas que tenham água e estejam na zona habitável — região ao redor da estrela, propícia para a existência de água líquida. A missão Kepler também está encontrando planetas desse tipo.

E aqui fica mais uma frase para pensar:

Longe de ser rara e preciosa, a vida talvez seja tão comum quanto os próprios planetas. Só nos resta sair à sua procura.


Origens é um livro para quem gosta de ciência e astronomia/astrofísica/cosmologia. Recomendo muito caso você tenha esses interesses.

Não é um livro introdutório, então sugiro ler Big Bang, do Simon Singh ou mesmo Cosmos, do Carl Sagan, antes de encarar este aqui.

A obra poderia ser mais didática ou até mais ilustrada para atrair leitores mais iniciantes, mas a intenção dos autores pareceu ser focar em leitores com um conhecimento intermediário, já iniciados no assunto.


Este texto faz parte do projeto I Mês da Leitura do Blog da Ciência. “Origens” foi o primeiro de uma série de três livros que serão lidos e comentados entre 15/05 e 16/06/2016.

Se estiver lendo este post a tempo, participe!


Se você gostou, dá aquele clique no botão da sua rede social favorita pra ajudar a espalhar esse texto.

E se você aprendeu algo novo ou já tinha lido o livro, me conta aqui nos comentários.

Engenheiro de Computação e Informação trabalhando com Marketing Digital e editando o Blog da Ciência. Convicto do poder da divulgação científica como ferramenta para compartilhar conhecimento.

Você pode gostar...